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Às vezes eu me faço essa pergunta no silêncio, quando não há ninguém olhando, nenhum sorriso ensaiado, nenhuma distração barata para esconder aquilo que pesa por dentro.
Porque eu sou tão estúpido?
Não no sentido de ferir pessoas com palavras duras, nem por arrogância ou brutalidade. Mas naquela estupidez silenciosa de quem tropeça nas próprias escolhas, de quem enxerga o erro chegando… e ainda assim abre a porta para ele entrar.
É estranho perceber como alguém pode ser, ao mesmo tempo, seu maior abrigo e seu próprio desastre.
Eu penso demais no que deveria ter feito diferente. Nas oportunidades deixadas pela metade, nos sentimentos mal compreendidos, nos sonhos que abandonei por medo, cansaço ou simples incapacidade de acreditar que eu conseguiria chegar até o fim.
Existe uma dor peculiar em reconhecer os próprios fracassos. Não aquela dor teatral, grandiosa, mas a pequena erosão diária causada pela consciência de ter participado ativamente da construção das próprias quedas.
Talvez eu me cobre demais. Talvez eu espere de mim uma versão impossível, disciplinada, brilhante, invulnerável. E quando falho — porque humanos falham — eu transformo o erro em sentença, o atraso em incompetência, a dúvida em prova definitiva de insuficiência.
Mas por que faço isso?
Por que é tão fácil oferecer compreensão aos outros e tão difícil reservar um mínimo de humanidade para mim mesmo?
Existe um tribunal interno funcionando sem descanso. Um lugar onde minhas falhas são exibidas como evidências incontestáveis, onde minhas tentativas raramente contam como mérito e meus acertos são tratados como obrigação.
E então nasce aquela pergunta amarga:
“Porque eu sou tão estúpido?”
Talvez porque eu tenha confundido vulnerabilidade com fraqueza.
Talvez porque eu tenha acreditado que errar diminui meu valor.
Talvez porque eu carregue expectativas pesadas demais dentro de um peito cansado demais.
Mas a autorreflexão também exige honestidade: nem tudo pode ser colocado nas costas das circunstâncias. Houve momentos em que fui negligente comigo mesmo. Ignorei sinais. Adiei mudanças. Sabotei possibilidades por medo do desconhecido ou por apego estranho ao familiar, mesmo quando o familiar machucava.
Reconhecer isso não é confortável.
É olhar para dentro e admitir que algumas dores não vieram apenas do mundo — vieram também das minhas omissões, dos meus excessos, das batalhas que escolhi não enfrentar.
Ainda assim, talvez exista algo importante escondido dentro dessa pergunta cruel.
Talvez quem pergunta “porque eu sou tão estúpido?” não esteja procurando uma condenação definitiva. Talvez esteja procurando entender por que dói tanto sentir que não consegue ser aquilo que imaginou de si mesmo.
E talvez a resposta não esteja em descobrir se sou estúpido ou não.
Talvez esteja em aprender a me olhar com menos crueldade e mais verdade.
Porque fracassar não me torna irreparável.
Sentir confusão não me torna incapaz.
Tropeçar repetidamente não significa que não exista caminho.
Talvez eu seja apenas alguém cansado, tentando compreender as próprias ruínas enquanto procura, mesmo sem muita certeza, uma maneira de reconstruir alguma coisa por dentro.
E talvez isso não seja estupidez.
Talvez isso seja apenas o difícil, imperfeito e profundamente humano exercício de continuar existindo.
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