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Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
- Clarice Lispector
Há coisas na vida que não se explicam — apenas se sentem. E, talvez, seja justamente aí que more a beleza de existir. Passamos tanto tempo tentando compreender, enquadrar, definir, que esquecemos de viver o instante em sua pureza, sem rótulos, sem pressa, sem garantias.
Renda-se. Essa palavra carrega um convite, não à desistência, mas à entrega. Entregar-se é reconhecer que o controle é uma ilusão bonita, porém frágil. É perceber que a vida se desenha em curvas, e não em linhas retas. Que há mares que só revelam a cor verdadeira quando a gente decide se molhar.
Mergulhar no desconhecido é assustador. O medo do incerto nos paralisa, mas é justamente o incerto que abre espaço para o novo. O amor, a fé, a arte, o encontro — nada disso cabe no raciocínio exato. Tudo o que realmente vale a pena está além da explicação.
Clarice estava certa: viver ultrapassa qualquer entendimento. Há dias em que a vida é caos, outros em que é calmaria. E talvez o segredo seja apenas deixar que cada um cumpra seu papel. Viver é deixar-se atravessar, é permitir que algo te transforme, mesmo que doa, mesmo que você não entenda.
Porque, no fim, a compreensão vem quando já não é mais necessária. E é aí — no instante em que você se rende — que a vida, enfim, começa a acontecer.
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