. . . UM CONTO
Ele percebeu numa terça-feira comum, dessas em que nada parece acontecer. O celular estava sobre a mesa, virado para baixo, não por orgulho, mas por cansaço. Cansaço de esperar respostas que vinham tarde, de entender ausências disfarçadas de rotina, de aceitar promessas que sempre ficavam para depois.
Lembrou-se de como era simples para algumas pessoas. Havia quem aparecesse no meio do dia só para perguntar se ele tinha almoçado. Quem ligasse por cinco minutos, mesmo atrasado, apenas para ouvir sua voz. Não eram gestos grandiosos. Eram presenças pequenas, mas inteiras.
Foi então que a frase se formou dentro dele, não como revolta, mas como clareza: quando você é realmente importante para alguém, aquela pessoa sempre vai ter um tempo pra você. Sem desculpas, sem promessas e sem mentiras.
Ele pensou em todas as vezes em que aceitou explicações demais e presença de menos. Em quantas vezes confundiu afeto com insistência. Em como o coração aprende, às vezes tarde, que amor não pede espaço — ocupa.
Naquela noite, decidiu mudar. Não fez discurso, não cobrou, não fechou portas com raiva. Apenas parou de correr atrás de quem nunca andava na mesma direção. Passou a valorizar quem chegava, mesmo cansado, mesmo com o dia cheio, mas chegava.
E, curiosamente, o silêncio que ficou não doeu como antes. Ele veio acompanhado de paz. Porque quando se entende que o tempo do outro revela o lugar que ocupamos, a gente para de se diminuir para caber onde nunca houve espaço.
Ele dormiu com a certeza de que não precisava mais de promessas. O que era verdadeiro sempre encontraria um tempo.
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