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O barulho do metal se retorcendo ainda ecoava dentro da cabeça de Daniel, mesmo semanas depois do acidente. Às vezes, no meio do silêncio, ele jurava ouvir o som do vidro se estilhaçando — como se a lembrança tivesse se tornado parte de sua respiração.
Naquela noite, ele havia discutido com Laura. Palavras afiadas, ditas no calor da pressa, antes de bater a porta e sair. Tudo parecia urgente demais: o trabalho, o orgulho, a necessidade de ter razão. A vida, naquela época, era uma corrida sem pausa. Até que a curva, o farol, o instante — tudo se dissolveu num clarão branco.
Acordou num hospital, cercado de máquinas que piscavam e sussurros que pareciam vindos de outro mundo. “Você sobreviveu por pouco”, disseram. E ele pensou: por pouco… mas por quê?
Durante a reabilitação, aprendeu o que nunca havia percebido: que a pressa é uma forma de cegueira. Que o tempo não é inimigo, mas convite. Que a vida, quando se despedaça, não termina — apenas muda de tom.
Laura o visitou um dia, trazendo um girassol em um vaso pequeno. “Você sempre odiou flores”, ela brincou. Ele sorriu pela primeira vez em meses.
Desde então, Daniel passou a caminhar devagar. A notar a sombra da luz sobre as coisas simples: o café quente, o som da chuva, o toque breve de uma mão.
Porque entendeu — como quem volta da beira do abismo — que a vida nem sempre termina nas colisões. Às vezes, ela começa ali, entre os cacos, quando uma sobra de luz insiste em atravessar a escuridão.
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