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Fé e sentimento, nesse mundo sitiado, parecem teimosias antigas — dessas que sobrevivem mesmo quando tudo ao redor se desfaz.
Vivemos cercados: por muros de medo, cercas de desconfiança, trincheiras erguidas pela pressa e pela frieza. É fácil sentir-se prisioneiro de um tempo que mede o valor das pessoas por métricas rápidas, que confunde urgência com importância e que julga a profundidade pelo número de curtidas.
Ainda assim, há quem guarde a fé como um abrigo secreto. Não a fé cega, mas aquela que resiste ao cinismo, que acredita em amanheceres mesmo depois de noites intermináveis. E há quem insista no sentimento, mesmo sabendo que ele não cabe em gráficos ou planilhas.
Num mundo sitiado, manter fé e sentimento é quase um ato de insurgência. É caminhar desarmado por ruas hostis, é apostar no abraço em tempos de distanciamento, é plantar flores nas fendas do asfalto.
Porque, talvez, sejam justamente essas pequenas ousadias — crer, sentir, permanecer — que, no silêncio da madrugada, começam a desatar as grades invisíveis que nos cercam.
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