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Tem gente que vive e não percebe. Vive apenas. Passa pelos dias como quem atravessa uma rua olhando para o chão, sem notar a árvore que floresce na calçada ou o olhar de quem pede socorro em silêncio. Refletir, talvez, seja esse gesto de levantar os olhos e enxergar — não apenas fora, mas dentro também.
A reflexão, ao contrário do que muitos pensam, não é privilégio dos sábios ou dos religiosos. Ela é parte do pacote da vida. Vem com o tempo, com os tombos, com os silêncios que nos forçam a parar. Mas é verdade: nem todo mundo se dá conta disso. Há quem fuja do espelho, há quem evite o próprio pensamento como se evitasse um antigo fantasma.
Refletir não é mudar — embora, às vezes, mude. Refletir é reconhecer, é trazer à tona alguma coisa esquecida ou ignorada que insiste em se mostrar. É dar voz ao íntimo, ouvir o que o coração sussurra quando o barulho do mundo diminui.
É curioso como a reflexão nos coloca no eixo. Ela nos lembra que a vida é presente — literalmente um presente. Cada manhã que amanhece, ainda que nublada, ainda que fria, é uma nova chance de olhar ao redor e agradecer. Há sempre uma dádiva escondida no cotidiano: no café quente, no abraço demorado, no simples fato de respirar.
O mundo está cheio de realidades difíceis, de vidas machucadas, de ausências que não se preenchem. Mas, quando refletimos, entendemos a bênção que é existir com um mínimo de paz. O ato de refletir amplia o campo de visão da alma. Nos dá perspectiva, humildade e, quem sabe, até uma fé mais viva.
A reflexão é um ponto de interrogação que caminha com a gente desde o começo. É o que nos impede de virar pedra, é o que nos empurra a ser gente. Por isso, quem reflete, vive mais inteiro. Porque pensar sobre a vida é uma forma de honrá-la. E, talvez, o que nos humaniza de verdade seja essa capacidade de silêncio com sentido — essa conversa honesta com o próprio coração.
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