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quinta-feira, 24 de julho de 2025

🛣️A Beleza do Percurso

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Ela caminhava apressada pela calçada, telefone colado ao ouvido, discutindo prazos e metas. Seus passos eram precisos, calculados para economizar segundos preciosos. Não viu o ipê amarelo que desabrochava na esquina, nem o sorriso tímido da criança que brincava na janela do segundo andar. Muito menos percebeu o perfume de café que escapava da padaria, misturando-se ao ar matinal de uma cidade que também corria contra o tempo.

 

Somos todos ela, de certa forma. Acordamos já pensando no final do dia, planejamos segunda-feira ainda no domingo, sonhamos com as férias enquanto ainda estamos no primeiro dia do ano. Vivemos numa corrida constante rumo ao “depois” – depois que eu me formar, depois que conseguir aquele emprego, depois que comprar a casa, depois que os filhos crescerem, depois que me aposentar. E assim, a vida vira uma eterna sala de espera onde nos sentamos impacientes, tamborilando os dedos, esperando que nossa vez chegue.

 

Mas quando chegamos lá – seja lá onde for esse “lá” que tanto perseguimos –, descobrimos que o lugar não tem a vista que imaginávamos. O diploma não trouxe a felicidade prometida, o emprego dos sonhos tem pesadelos que não prevíamos, a casa própria cobra impostos que não calculamos. E então, quase sem perceber, criamos um novo “depois” para correr atrás, porque é mais fácil viver no futuro do que enfrentar o presente.

 

O percurso, ah, o percurso… Ele está ali, acontecendo agora, neste exato momento em que você lê estas palavras. É o gosto do café matinal, mesmo que seja correndo. É a conversa despretensiosa com o colega de trabalho, mesmo que vocês estejam reclamando do chefe. É o abraço apertado do filho quando você chega em casa cansado, mesmo que ele esteja te interrompendo para pedir ajuda com a lição de casa.

 

A beleza mora nos detalhes que só percebemos quando paramos de contar os passos. Está no jeito que a luz da tarde entra pela janela e desenha geometrias na parede. No riso genuíno de um amigo que conta uma piada ruim. Na música que toca no rádio e, de repente, te transporta para outro tempo, outro lugar, outra versão de você mesmo.

 

Tem uma sabedoria antiga que diz que a vida acontece enquanto fazemos outros planos. Mas talvez seja mais preciso dizer que a vida acontece quando paramos de fazer tantos planos e começamos a prestar atenção no que já está acontecendo. O presente é o único tempo que realmente possuímos, e ainda assim é o que menos habitamos.

 

Não é que devemos abandonar sonhos ou deixar de ter objetivos. É que podemos aprender a sonhar caminhando, a ter metas sem perder a capacidade de nos encantar com o inesperado. É possível ser ambicioso e contemplativo ao mesmo tempo, produtivo e presente simultaneamente.

 

A pressa é inimiga da percepção. Quando corremos, vemos apenas o destino. Quando caminhamos, vemos a paisagem. Quando paramos, vemos a nós mesmos. E talvez seja isso que mais tememos – nos ver de verdade, sem a distração da velocidade, sem a desculpa da urgência.

 

A mulher da calçada, se parasse por um segundo, descobriria que o mundo não acaba se ela chegar dois minutos atrasada. Descobriria que existem cores que ela não via há anos, sons que sua pressa havia silenciado, pessoas que sua velocidade havia tornado invisíveis.

 

O percurso é onde a vida acontece. O destino é apenas uma desculpa para começar a caminhar. E a beleza, bem, a beleza está em perceber que já chegamos – chegamos a cada passo, a cada respiração, a cada momento em que escolhemos estar verdadeiramente onde estamos.

 

Por que tanta pressa, mesmo? O que pode ser tão urgente que nos faça perder a oportunidade de viver nossa própria vida?

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