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O tempo, aquele velho senhor de passos longos e olhos fundos, andava por entre os dias como quem percorre um corredor conhecido. Sabia de cor o caminho do nascer ao pôr-do-sol, das estações que se revezam sem se atrasar. Era paciente. Sempre foi. Nunca correu — apenas seguiu.
Mas numa tarde nublada, dessas que parecem suspensas entre o ontem e o agora, ele parou. Encostou-se no silêncio e pensou consigo mesmo:
— Como as pessoas passam depressa!
Sim, ele as via. Tão apressadas em serem felizes, em conquistarem, em chegarem, em resolverem tudo como se o tempo estivesse acabando. E, ironicamente, era ele quem ali estava: constante, inabalável, oferecendo dias após dias, anos sobre anos, como quem entrega presentes embrulhados em oportunidade.
As pessoas, no entanto, mal desembrulhavam os instantes. Pulavam páginas, viviam no “depois” e respiravam no “quase”. O tempo oferecia manhãs claras, cafés demorados, olhares silenciosos, tardes de conversa ao pé da janela… mas elas estavam sempre ocupadas demais. Em fila. Com pressa. Olhando para o relógio como se ele fosse o vilão.
E o tempo, que só queria ser companhia, era tratado como obstáculo.
Ele observava uma criança brincando sozinha no quintal — essa ainda sabia. Cada pedra era um universo. Cada vento no rosto, uma aventura. Mas logo alguém a chamaria para dentro: “Vai se atrasar!” E ali acabava a eternidade daquela tarde.
O tempo suspirou.
Sabia que um dia seria acusado de roubar juventudes, de apagar sorrisos, de levar quem se ama. Mas ele não tirava nada. Apenas caminhava. Era o homem que esquecia de viver, a mulher que deixava para depois, o jovem que corria por metas que não entendia, o velho que lamentava não ter parado.
O tempo era só passagem.
Mas e as pessoas? Ah, elas eram correria.
Talvez o maior paradoxo da vida seja esse: o tempo passa devagar, mas as pessoas é que não param nunca. E um dia, sem perceber, correm tanto que se perdem de si mesmas.
E naquele fim de tarde, enquanto o mundo girava mais um pouco, o tempo pensou consigo:
— Se ao menos soubessem que estou aqui, não para ser vencido, mas para ser vivido…
E seguiu.
Devagar, como sempre.
Esperando que um dia alguém caminhe ao seu lado.
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